ATENO:

ESTE LIVRO FOI DIGITALIZADO PARA USO EXCLUSIVO DE PESSOAS COM DEFICINCIA VISUAL GRAVE. ISTO PORQUE ESTES CIDADOS TM DIFICULDADE DE ACESSO A LEITURA QUE VO MUITO 
ALM DA FALTA DE CONDIES FINANCEIRAS NA OBTENO DE LIVROS. AMIGO DV, POR FAVOR, SEJA CONSCIENTE E RESPEITE. NO REPASSE ESTA OBRA A PESSOAS QUE NO SO PORTADORAS 
DE DEFICINCIA VISUAL, SOB PENA DE FERIR OS DIREITOS AUTORAIS E PREJUDICAR ASSIM A NS MESMOS NO FUTURO. QUEM DIGITALIZA LIVROS SABE O QUANTO  DIFCIL ESTE TRABALHO 
E A SUA CORREO POSTERIOR. NUM MOMENTO EM QUE ESTAMOS TENTANDO COM AS EDITORAS QUE ESTES VENHAM DIGITALIZADOS E CORRIGIDOS PARA NS, NO SERIA UMA BOA QUE ESTAS 
OBRAS FICASSEM POR A PARA QUALQUER UM TER ACESSO. SUA CABEA  O SEU GUIA!


CAPTULO 27 
CONCORDNCIA VERBAL 
CASUS tiLl{AIS 
Reduzem-se a duas as regras gerais de concordncia verbal: 
1) Havendo um s ncleo (sujeito simples), com ele concorda o em pessoa e nmero: 
"Eu ouo o canto enorme do Brasil!" (RONALD DE CARVA 
"Melhor negcio que Judas 
fazes tu, Joaquim Silvrio!" (CECiLIA MEIRELES) 
"Um dia um cisne morrer, por certo.. ."(JLIo SALUSSI 
"Naquela grande rua sossegada 
ns fizemos, um dia, o nosso ninho:" (GUILHERME DE ALMI 
"Brasileiros, 
vs tendes os ouvidos moucos 
s grandes palavras de f." (TAsso DA SILVEIRA) "Os caboclos levantaram-se em alvoroo, alarmados." (Co 
NETO) 
"Aqui outrora retumbaram hinos." (RAIMUNDO CORREU 
2) Havendo mais de um ncleo (sujeito composto), o verbo vai o plural e para a pessoa que tiver primazia, na seguinte escala 
a) A 1 pessoa prefere todas as outras. 
b) No figurando a 1 pessoa, a precedncia cabe  2. 
c) Na ausncia de uma e outra, o verbo assume a forma da 3 pe 
Exemplos: 
a) "Eu e o papai queremos aproveita-lo, para conversar." (( 
DOS ANJOS) 
c) "Roberto e o milagreiro chegaram logo." (RACHEL DE QUE] 
388 
Quanto ao caso b), deve notar-se que no  fcil documentar a sintaxe cannica (isto : tu + ele ou eles = vs) na linguagem contempornea do Brasil. 
Uma construo como esta de Vieira: 
"Neste caso tu e mais eles todos sereis salvos." -, toa-nos um tanto artificial em razo do pouco uso do tratamento de vs* e, alm disso, da preponderncia de voc 
sobre tu em grande parte do territrio nacional. 
Entre ns, o uso corrente culto, assim oral como scrito, parece 
inclinar para a concordncia na 3 pessoa do plural, a exemplo deste 
lano de Coelho Neto: 
"Juro que tu e tua filha me pagam." 
Alis, tal uso no  estranho a escritores portugueses de nota, no 
s antigos seno tambm modernos: 
"Desejo que tu e quantos me ouvem se tornem tais qual eu sou." 
(FREI AMADOR ARRAIS) 
"O que eu continuamente peo a Deus  que ele e tu sejam meus 
amigos." (CAMILO CASTELO BRANCO) 
"Esto tu e teu irmo resolvidos a procurarem Marcos Freire?" 
(CAMILO CASTELO BRANC) 
CONCORDNCIA FACULTATIVA 
COM O SUJEITO MAIS PRXIMO 
Em certas situaes, no  raro que o verbo que tem sujeito composto concorde apenas com o ncleo que lhe estiver mais prximo - 
o que costuma ocorrer: 
1) Quando o sujeito composto vier depois do verbo: 
"Que me importava Carlota, o lar, a sociedade e seus cdigos?" 
(CYRO DOS ANJOS) 
* A no ser em situaes solenes, em frmulas rituais ( o caso do Padre-nosso e da Ave-maria), ou no estilo burocrtico. 
rr 1 E 
L1 
389 
O escritor poderia ter empregado importavam, em concordnci a totalidade dos ncleos (o que, por sinal,  mais comum) - fez nesta passagem: 
"(...) o salo onde se achavam o dr. Azevedo e Glria. 
Eis outros exemplos do verbo no singular: 
"Faze uma arca de madeira: entra nela tu, tua mulher e t 
lhos." (MACHADO DE Assis) 
"Era um auditrio desigual onde se misturava infncia e 
ridade." (CLARICE LISPECTOR) 
2) Quando o sujeito composto for constitudo de palavras sin, ou quase sinnimas, de sorte que se nos apresentem ao esprito 
um todo indiviso, ou como elementos que simplesmente se refoi 
"O mais importante era aquele desejo e aquela febre que o 
como o barro une as pedras duras." (DINAH SILVEIRA DE Qut 
Ainda aqui, tem cabimento a concordncia regular, que , sei 
vida, a predileta dos escritores brasileiros da atualidade: 
"O desalento e a tristeza abalaram-me." (GRACILIANO RA 
"S o medo e o horror  que so justos." (RACHEL DE QUE 
3) Quando os ncleos do sujeito composto se ordenarem num dao de idias, concentrando-se no ltimo deles a ateno do esc 
"E entrava a girar em volta de mim,  espreita de umju( 
uma palavra, de um gesto, que lhe aprovasse a recente produ 
(MACHADO DE 
Escusado acrescentar que, tambm neste caso,  lcito ao es 
optar pela forma do plural: 
"Um gesto, uma palavra -toa logo me despertavam suspei 
(GRACILIANO RA 
"A sade, afora, a vitalidade faziam-me ver as coisas dii 
tes." (JOS LINs DO REGO) 
VOZ PASSIVA COM A PARTCULA 'SE' 
Ateno especial deve merecer a concordncia de verbo acc 
nhado da partcula 'se' e seguido de substantivo no plural, em 
trues deste tipo: 
Alugam-se casas. Regulam-se relgios. 
Venderam-se todos os bilhetes. 
390 
Este substantivo, representado (geralmente) por ser inanimado,  o sujeito da frase -, razo pela qual com ele h de concordar o verbo. 
A ndole da lngua portuguesa inclina para a posposio desse sujeito ao verbo; aponta-se por menos comum a sua presena antes do 
verbo, assim como vir ele representado por ser animado. 
Eis documentao literria de um e outro caso, na linguagem modelar de Machado de Assis: 
"Sentei-me, enquanto Virgflia, calada, fazia estalar as unhas. Seguiram-se alguns minutos de pausa." 
"Fizeram-se finalmente as partilhas, mas ns estvamos briga- dos." 
"No se perdem cinco contos, como se perde um leno de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos." "H ingratos, mas os ingratos demitem-se, prendem-se, 
perseguem-se." 
Nas variadas situaes que se apresentam nos exemplos citados, o sujeito  sempre o paciente da ao verbal -, o que caracteriza a voz passiva. 
Observao: 
Se o nome no plural estiver precedido de preposio, o verbo ficara no singular: 
Precisa-se de datilgrafas. No se obedece a ordens absurdas. 
o mesmo acontece quando o verbo  intransitivo, ou empregado como tal: 
Vive-se bem aqui. Assim se vai aos astros. Estuda-se pouco nos dias de hoje. 
Em casos como esses, deixa-se completamente indeterminada a pessoa que pratica 
a ao. 
CASOS PARTICULARES 
1. UM E OUTRO 
O substantivo que se segue  expresso um e outro s se usa no singular,* mas o respectivo verbo pode empregar-se no singular ou 
no plural. 
* Continua solit.rio o conhecido exemplo de frei Lus de Sousa ( de um, e outro arcebispos... ") - para o qual chamara a ateno o professor Sousa da Silveira, 
nas Lies de portugus, cit., p. 140. 
391 
Exemplos: 
"Uma e outra coisa lhe desagrada." (MANUEL BERNARDES 
"De repente, um e outro desapareceram, como se a terra os hoi 
vera engolido." (ALEXANDRE HERCULANO) 
"Um e outro  sagaz e pressentido; 
- Um e outro aos ladres declaram guerra." (ANTNIO FEuc1A 
DE CASTILHO) 
"Um e outro pareciam confusos e acanhados." (MACHADO E 
Assis) 
2. UM OU OUTRO 
J a expresso um ou outro, seguida ou no de substantivo, reclan 
o verbo somente no singular: 
"(...) um ou outro rapaz virava a cabea para nos olhar, 
(RACHEL DE QuEIR0 
"Um ou outro vaga-lume tornava mais vasta a escurido." 
(CLARICE LISPECTOR) 
3. NEM UM, NEM OUTRO 
Tambm a expresso nem um, nem outro, seguida ou no de su tantivo, exige o verbo no singular.* 
Exemplos: 
"Afirma-se que nem um, nem outrofalou verdade." (FREI Li. DE SousA) 
"Nem uma, nem outra diligncia se pde fazer." (MANU] BERNARDES) 
"No entanto, nem uma nem outra se surpreendeu, abstendo- mesmo de fazer o mais leve comentrio." (OCTVIO DE FARI 
"Nem um, nem outro havia idealizado previamente esse enco tro." (TAsso DA SILVEIRA) 
* S excepcionalmente se encontrara o verbo no plural. 
392 
4. UM DOS QUE 
H dupla sintaxe: com o verbo no singular, construo talvez mais lgica; ou, atendendo-se de preferncia  eufonia, com o verbo no plural. 
Exemplos: 
"Esta cidade foi uma das que mais se corrompeu da heresia." 
(FREI Lus DE SousA) 
"Uma das coisas que muito agradou sempre a Deus em seus servos, foi a peregrinao..." (ANTNIO VIEIRA) 
"O reitor foi um dos que mais se importou com a preocupao do homem." (JLIO DINI5) 
"Patrocnio foi um dos brasileiros que mais trabalharam em prol da Abolio." (LAUDELINO FREIRE) 
5. MAIS DE UM 
Fica no singular o verbo, concordando com o substantivo que acompanha a expresso. 
Exemplos: 
"Mais de umjornalfez aluso nominal ao Brasil." (ALEXANDRE 
HERCULANO) 
"Mais de um ru obteve a liberdade..." (MACHADO DE Assis) 
Se a expresso mais de um estiver repetida, ou se for inteno do 
escritor inculcar idia de reciprocidade,  ao plural que recorrem os 
bons autores. 
Exemplos: 
"Mais de um oficial, mais de um general, foram mortos nesta batalha." (CARNEIRO RIBEIRO) 
"Mais de um poltico de princpios adversos deram-se as mos naquela crise medonha do pas." (Idem) 
6. SUJEITOS RESUMIDOS 
Quando a vrios sujeitos se seguir uma das palavras de sntese - tudo, nada, algo, algum, ningum, etc. -, fica o verbo no singular, 
mesmo que entre os sujeitos haja algum ou alguns no plural. 
393 
Exemplos: 
"As cidades, os campos, os vales, os montes, tudo era mar." 
(ANTNIO VIEIRA) 
"Uma bolsa a impar de dobres de ouro, um palcio, criadagem, coches, vinhos generosos, estiradas sem termo de matas, vinhas, pastos e terras de semeadura, nada 
disto faz com que um rico seja mais afortunado que o mnimo dos vizinhos." (ANTNIO FELICIANO DE CASTILHO) 
"Os caminhes devastadores, as chuvas, o cupim, a poltica, a mesquinhez de verbas [...], nada disso conseguiu ainda liquidar completamente a gloriosa Vila Rica 
de Albuquerque..." (CARLOr DRUMMOND DE ANDRADE) 
"Comandantes, oficiais, soldados, ningum escapou com vidr 
naquele dia lutuoso." (CARNEIRO RIBEIRO) 
7. EXPRESSES DE SENTIDO QUANTITATIVO 
ACOMPANhADAS DE COMPLEMENTO NO PLURAL 
Se a um nome ou pronome no plural antepomos uma expresso quan titativa como grande nmero de, grande quantidade de, parte de, grand parte de, a maior parte de, 
e equivalentes, o verbo fica no singula ou no plural. 
Exemplos: 
a) Singular: 
"A maioria dos condenados acabou nas plagas africanas." 
(CAMILO CASTELO BRANCO) 
"Uma nuvem de setas respondeu ao sibilar dos esculcas rabes.' 
(ALEXANDRE HERCULANO) 
b) Plural: 
"A maior parte das suas companheiras eram felizes." (CAMIL 
CASTELO BRANCO) 
"(...) um grande nmero de velas branquejavam sobre as gua 
do estreito." (ALEXANDRE HERCULANO) 
Quando a ao do verbo s pode ser atribuida  totalidade e n 
separadamente aos indivduos,  bvio que se deve preferir o singular 
394 
"Um troo de soldados enchia o primeiro pavimento do edificio.'  claro que a ao de encher um pavimento no podia ser atribuda 
individualmente a cada soldado."* 
8. QUAIS, QUANTOS ALGUNS, MUITOS, POUCOS, VRIOS 
+ DE NOS, DE vs, DENTRE NOS, DENTRE VOS 
Com sujeitos deste tipo, o verbo fica na 3 pessoa do plural, ou 
concorda com o pronome ns ou vs. 
Exemplos: 
"(...) quantos dentre vs estudam conscienciosamente o passado?" 
(JOS DE ALENCAR) 
"Quais de vs sois, como eu, desterrados no meio do gnero 
humano?" (ALEXANDRE HERCULANO) 
"Quais dentre vs.., sois neste mundo ss e no tendes quem na morte regue com lgrimas a terra que vos cobrir?" (ALEXANDRE HERCULANO) 
9. QUAL DE NS OU DE VS, 
DENTRE NS OU DENTRE vs 
Se o interrogativo est no singular, torna-se impossvel a concordncia 
com o pronome que figura no complemento. Neste caso, fica o verbo 
somente na 3 pessoa do singular. 
Exemplos: 
"Qual de vs me argir de pecado?" (ANTNIO VIEIRA) 
"Qual de vs outros, cavaleiros - dizia Pelgio aos que o rodeavam - duvidar um momento...?" (ALEXANDRE HERCULANO) 
"Abre o tmulo, e olha-me: dize-me qual de ns morreu mais." 
(CECLIA MEIRELES) 
* JoSo Ribeiro, Gramtica portuguesa, cit., p. 140. 
395 
10. SUJEITOS UNIDOS POR COM 
O mais freqente  usar-se o verbo no plural, visto que ambos sujeitos "aparecem em p de igualdade tal, que se podem consid 
como enlaados por e". * 
Exemplos: 
"D. Maria da Glria firmou a doao, e a milanesa com se lho partiram para a Itlia." (CAMILO CASTELO BRANCO) 
"Eu com o abade entramos corajosamente num coelho guisad 
(CAMILO CASTELO BRANCO) 
"E atravessaram a serra, 
o noivo com a noiva dele 
cada qual no seu cavalo." (MRIO DE ANDRADE) 
Emprega-se (mas raramente) o verbo no singular quando o segu sujeito  posto em plano to inferior, que se degrada  simples c dio de um complemento adverbial 
de companhia. Por este mek mais pertencente  linguagem afetiva - d-se relevo especial ao meiro sujeito, como fez Cames no seguinte lano, referindo-se a Vi 
"Convoca as alvas filhas de Nereu, 
Com toda a mais cerlea companhia: 
Que, porque no salgado mar nasceu, 
Das guas o poder lhe obedecia: 
E propondo-lhe a causa a que desceu 
Com todas juntamente se partia, 
Pera estorvar que a armada no chegasse 
Aonde pera sempre se acabasse." (Os Lusadas, II, 19) 
Ao pressentir a cilada traioeira que os mouros armavam  g portuguesa, Vnus - figura central de todo o trecho, e cujo au faz Cames questo de realar - convoca 
"as alvas filhas de Nen para, juntamente com elas, impedir o desastre iminente. 
Pondo o verbo no singular, ao dizer que Vnus 
"Com todas juntamente se PARTIA", 
consegue o poeta alcanar o efeito que buscava, isto , encarecer p 
* Mrio Barreto, Novssimos estudos da lngua portuguesa, cit., p. 93; e N estudos da lngua portuguesa, cit., pp. 201-4. 
396 
cipalmente a ao da formosa deusa, deixando na penumbra as que 
com ela se foram tambm em auxlio aos bravos nautas do Gama. 
Do mesmo tipo  esta construo de Cyro dos Anjos: 
"A viva de Aguinaldo, com os dois filhos, est conseguindo 
arrombar a caixa-forte (...)" 
11. TANTO... COMO, ASSIM... COMO, 
NO S... MAS TAMBM, ETC. 
Se o sujeito  construdo com a presena de uma frmula correlativa, 
deve preferir-se o verbo no plural. 
"Assim Saul como Davi, debaixo do seu saial, eram homens de 
to grandes espritos, como logo mostraram suas obras." 
(ANTNIO VIEIRA) 
"No s a nao, mas tambm o prncipe, estariam pobres." 
(ALEXANDRE HERCULANO) 
"Tanto a mulata como a criana o observavam dissimuladas de 
longe sem se aproximar." (CLARICE LISPECTOR) 
 raro aparecer o verbo no singular: 
"(...) tanto uma, como a outra, suplicava-lhe que esperasse at 
passar a maior correnteza." (ALENCAR) 
12. SUJEITOS UNIDOS POR E ___ 
Quando concorrem vrios sujeitos de 3 pessoa, coordenados assindeticamente 
ou unidos pela conjuno e, a regra normal (j estudada) 
 pr-se o verbo na 3 pessoa do plural se os sujeitos esto antepostos. 
No entanto, quebra-se este princpio, ficando o verbo na 3 pessoa 
do singular, nos casos seguintes: 
a) Quando os sujeitos se dispem numa escala gradativa, de tal forma 
que a ateno do leitor se concentre no ltimo. 
Exemplo: 
"Que alegria, pois, que gozo, que admirao ser a de um 
Bem-aventurado, quando se vir semelhante a Deus.. .!" (MANUEL 
BERNARDES) 
397 
b) Quando os sujeitos esto de tal maneira unidos, que formam co um todo indivisvel, expressando uma idia nica. 
"Em tal sorriso o passado e o futuro estava impresso." 
(ALEXANDRE HERCULANO) 
Neste exemplo, "o passado e o futuro so manifestaes de u 
idia nica: o tempo distante".* 
So menos encontradios os exemplos nos quais o segundo sujc est precedido de artigo. "Com efeito, a funo do artigo definid a de particularizar o objeto; e, para 
que dois ou mais elementos p sam formar um todo,  necessrio que no se acentuem as partic ridades que os distinguem."** 
Exemplos, com o segundo sujeito sem artigo: 
"A coragem e afoiteza com que eu lhe respondi perturbou-o tal modo, que no teve mais que dissesse." (CAMILo CASTE BRANCO) 
"(...) e este cuidado e temor nos ajudar a obrar com exai 
e pontualidade." (MANUEL BERNARDES) 
13. SUJEITOS ORACIONAIS 
Fica no singular o verbo que se refere a vrios sujeitos expres 
por oraes, quer iniciadas por conectivo, quer reduzidas. 
Exemplos: 
["Que Scrates nada escreveu] e [que Plato exps as doutri de Scrates]  sabido." (Joo RIBEIRO) 
["Humilhar a aristocracia,] [refrear o clero,] [cercear-lhe os 1 vilgios e imunidades] e [for-los a igualar-se com o povo equivalia a exalar a plebe." (LATINO 
COELHO) 
"[E dizer] [e fazer] era um relmpago." (CARLOS DRUMMC DE ANDRADE) 
No caso de os sujeitos exprimirem contraste de idias, usa-se o plu. 
["Usar de razo] e [amar] sdo duas coisas que no se ajuntan 
(ANTNIO VIEIRA) 
* J. Matoso Cmara Jr., Elementos da lngua ptria, cit., p. 185, nota. 
** M. Rodrigues Lapa, Estilstica da lngua portuguesa, 6 cd., Rio de Janc Acadmica, 1970, p. 171. 
398 
14. SUJEITOS UNIDOS POR NEM 
a)  caso difcil de disciplinar; mas pode-se ter por norma empregar o verbo no plural quando os sujeitos so da 3 pessoa. 
Exemplos: 
"Nem a natureza, nem o demnio deixaram a sua antiga posse." 
(MANUEL BERNARDES) 
"Nem a resignao, nem o consolo so possveis para ti neste momento." (ALEXANDRE HERCULANO) 
"Em todo caso, nem o coadjutor nem o sacristo lhe perguntaram nada." (MACHADO DE ASSIS) 
b) "Querendo-se, todavia, pr em relevo" - so palavras de Said Ali - "que a mesma ao se repete para cada um dos sujeitos, sucessivamente ou em pocas diferentes, 
d-se ao verbo a forma do singular, desde que no singular tambm estejam os diversos sujeitos. " 
Exemplos: 
"Nem a lisonja, nem a razo, nem o exemplo, nem a esperana bastava a lhe moderar as nsias..." (ANTNIO VIEIRA) 
"Nem a vista, nem o ouvido, nem o gosto pode discernir entre cor, som e sabor." (MANUEL BERNARDES) 
A verdade  que h certo descritrio no uso do singular ou do plural. No desejo de traarem regras, tm os gramticos fixado (como Alfredo Gomes, por exemplo) que 
"os sujeitos reunidos por nem querem o verbo no singular ou no plural, segundo exprimem especialmente concomitncia ou alternativa". 
Mas a exemplificao que aduzem no esclarece devidamente o assunto, por se prestarem muitas frases a mais de uma interpretao. Posto que um tanto sutil, parece-nos 
corresponder melhor  realidade dos fatos a observao de Said Ali, por ns esposada. 
c.) Se algum dos sujeitos  pronome pessoal, a concordncia se faz de acordo com os princpios da primazia, salvo se o verbo anteceder os sujeitos. 
Exemplos: 
"Nem meu primo, nem eu freqentamos tal sociedade." "Nem ns, nem eles nos esqueceremos disso." 
"Nem vs, nem ele perdereis em tal negcio. " 
* Said Ali, Gramtica secun4ria da lngua portuguesa, cit., p. 153. 
** Todos os trs exemplos, idem ibidem. 
399 
Com o sujeito depois do verbo: 
"No seriam eles, nem eu quem pusesse esse remate." 
(ALEXANDRE HERCULANO) 
d) Terminando a srie negativa por palavra ou expresso que resuni alguns dos sujeitos anteriores ou todos eles, concorda o verbo coi 
esta palavra ou expresso. 
Exemplos: 
"Nem eles, nem outrem h de possuir nada." (ANTNIO VIEUU "Nem eu, nem tu, nem ela, nem qualquer outra pessoa desta hi tria poderia responder mais." (MACHADO DE 
Assis) 
15. CERCA DE, PERTO DE, MAIS DE, MENOS DE, OBRA DE. 
Postas antes de um nmero no plural para indicar quantidade apr 
ximada, estas expresses requerem a concordncia no plural, excel 
com o verbo ser, em que h vacilao. 
Exemplos: 
"Saram  praia obra de oito mil homens." (JOO DE BARRO "Mais de sete sculos so passados depois que tu,  Cristo, viesi visitar a terra." (ALEXANDRE HERCULANO) 
"Eram perto de seis horas da tarde." (ALEXANDRE HERCULANC "Era perto das cinco quando sa." (EA DE QuEIRs) 
16. DAR, BATER, SOAR (HORAS) 
Em frases assim, estes verbos tm por sujeito o nmero que indic 
as horas. 
Exemplos: 
"Eram dadas cinco da tarde." (ALMEIDA GARRETT) 
"Deram dez horas." (EA DE QUEIRS) 
"Deram agora mesmo as trs da madrugada." (GUERR. 
JUNQUEIRO) 
"Deram trs horas da tarde." (ALuzIo AZEVEDO) 
"Iam dar seis horas." (MACHADO DE Assis) 
"Na igreja, ao lado, bateram devagar dez horas." (EA D 
QUEIRS) 
400 
"Cinco horas fanhosas soam no velho relgio do pensionato." 
(CYR0 DOS ANJOS) 
17. VERBOS IMPESSOAIS 
Em portugus, so impessoais, isto , empregam-se sem sujeito, 
os seguintes verbos, principalmente: 
a) Os que, no sentido prprio,* indicam fenmenos naturais: chover, gear, nevar, alvorecer, amanhecer, anoitecer, etc. 
b) Fazer, acompanhado de objeto direto, quando indica fenmenos devidos a fatos astronmicos (fazer calor, frio, vento, troves, sol, etc.), ou "que  decorrido 
tanto tempo depois que uma coisa aonteceu ou desde que ela acontece (faz seis meses que ele morreu, que no o vejo, etc.)".** 
Exemplos: 
"Aqui faz veres terrveis." (CAMILO CASTELO BRANCO) 
"Faz hoje precisamente sete anos; voltvamos da Escola Militar." (Rui BARBOSA) 
"Trs anos faz agora que eu recebia uma carta sua." (MANUEL 
BERNARDES) 
Combinando-se a um auxiliar, transmite a este sua impessoalidade. 
Exemplo: 
"Vai fazer cinco anos que ele se doutorou." (ANTNIO VIEIRA) 
c) Haver, seguido de objeto direto, significando a existncia de uma pessoa ou coisa. 
Exemplo: 
"Se no houvesse ingratides, como haveria finezas?" (MANUEL BERNARDES) 
"Mas, sem dvida haveria algumas noites para o amor." (JORGE AMADO) 
A impessoalidade deste verbo estende-se tambm aos auxiliares que 
com ele formam perfrases, como se v nos exemplos seguintes: 
"Ento convosco tambm, senhores meus, pode haver pactos?" 
(ANTNIO FELICIANO DE CASTILHO) 
* Em sentido figurado, eles podem-se personalizar: Da espessa nuvem, setas e pedradas / clwvem sobre ns outros sem medida." (Cames). 
** Augusto Epifnio Dias, ob. cit., p. 16. 
401 
"Costuma nisto haver alguns perigos." (MANUEL BERNARDI "Esquecer as coisas srias que poderia haver a separ-los: o ar rido, o filhinho que tinha dor de ouvido, 
o amor dela pelos do os deveres." (RACHEL DE QuErRoz) 
d) Acontecer, suceder e sinnimos, acompanhados de adjunto a verbial de modo. 
Exemplo: 
"Vasco da Gama, o forte Capito, 
Que a tamanhas empresas se oferece, 
De soberbo e de altivo corao, 
A quem fortuna sempre favorece, 
Pera se aqui deter no v razo, 
Que inabitada a terra lhe parece: 
Por diante passar determinava; 
Mas no lhe sucedeu como cuidava." (Os Lus(adas, 1, 44) 
18. SUJEITOS UNIDOS POR 'OU' 
1) Impe-se o emprego do verbo no singular em dois casos: 
a) Quando, coordenando dois ou mais substantivos no singular, partcula ou for alternativa, de tal forma que o verbo s se refira 
um dos sujeitos, com excluso dos demais. 
Exemplos: 
"(...) crendo que Fainam ou alguma de suas irms era morta. 
(Joo DE BARRO 
"Ningum soube jamais se fora desgosto ou doidice que o levai 
quela vida." (RACHEL DE QUEIROZ) 
b) Quando, coordenando dois ou mais substantivos no singular, partcula ou exprimir equivalncia, de tal forma que o verbo se pos 
igualmente referir a qualquer um desses sujeitos. 
Exemplos: 
"Um cardeal, ou um papa, enquanto homem, no  mais do qu uma pessoa..." (MANUEL BERNARDES) 
"O leitor ou espectador que acredita em histrias do Bicho-Tati murmura interiormente: 'Castigo'." (ERico VERSSIMO) 
402 
2) Vai, ao revs, o verbo para o plural: 
a) Quando, coordenando dois ou mais substantivos no singular, a partcula ou for aditiva (= e), de tal forma que a noo indicada pelo 
verbo abranja, ao mesmo tempo, todos os sujeitos. 
Exemplo: 
"O calor forte ou frio excessivo eram temperaturas igualmente 
nocivas ao doente." (JLIO NOGUEIRA) 
b) Quando um dos sujeitos estiver no plural. 
Exemplo: 
"As penas que so Pedro ou seus sucessores fulminam contra 
os homens..." (ANTNIO VIEIRA) 
"Repetindo-se depois de ou a palavra precedente, porm na forma do plural, para denotar que se admite retificao de nmero, o verbo concordar com o termo mais 
prximo, isto , ficar no singular, se vier antes dos dous sujeitos, e no plural se vier depois: 
'O poder ou poderes do homem eram sobre todos os peixes.' 
(VIEIRA) 
A parte ou partes contrrias viro  presena do juiz. 
Nenhum vestgio de sua presena deixou o autor ou autores do 
crime. " 
19. SUJEITO PRONOME RELATIVO 
So por igual excelentes as construes dos tipos seguintes: 
a) Fui eu que resolvi a questo. 
b) Fui eu o que resolvi a questo. 
c) Fui eu quem resolveu a questo. 
d) Fui eu quem resolvi a questo. 
Exemplos: 
a)"No fui eu que o assassinei." (ALEXANDRE HERCULANO) "Es tu que ris, louca?" (JORGE DE LIMA) 
b) "No s tu o que atribulaste e afligiste os inocentes, tiranizaste os que te tinham ofendido, e sobretudo o que disseste inirias, afrontas e blasfmias contra 
o Altssimo?" (ANTNIO VIEIRA) 
c) "Fui eu quem a matou." (ANTNIO FELICIANO DE CASTILHO) 
* Said Ali, Gramtica secundria da lngua portuguesa, cit., p. 151. 
403 

"Vs, e unicamente vs, sois quem me ocupa o nimo." (Fi ELsIo) 
"No sou eu quem s faz isto, todos fazem." (ADALGISAI 
d) "E tu s quem tens a culpa de eu viver sempre  sombr 
(FILINTO EL 
"Sou eu quem prendo aos cus a terra." (GONALVES 1 
20. CONCORDNCIA ESPECIAL DO VERBO 'SER' 
1 CASO: Tendo por sujeito o pronome interrogativo quem, definido tudo, ou um dos demonstrativos neutros isto, isso, aq 
o (que), e por predicativo um substantivo no plural -'  costum se neste nmero o verbo ser, mas no escasseiam exemplos er ele aparece no singular: 
Plural: 
"Eram tudo travessuras de criana." (MACHADO DE As "Isto... eram notas que eu havia tomado para um captulo e vulgar que no escrevo." (MACHADO DE Assis) "Aquilo 
no so vozes, so ecos do corao." (MATIAS A "Tudo so sonhos dormidos ou dormentes!" (CECUA MEIR "Isto so coisas que digo, 
que invento, 
para achar a vida boa..." (CECLIA MEIRELES) 
"O que nos define so as idias estratificadas (...)." (CYR 
ANJOS) 
Singular 
"Tudo  flores no presente." (GONALVES DIAs) "Era tudo ameaas de demncia." (CAMILO CASTELO BRA "Tudo o que a est  os dotes de meus irmos." (CA 
CASTELO BRANCO) 
2? CASO: Se o sujeito for pessoa, com ele h de concordar o v 
qualquer que seja o nmero do predicativo. 
404 
1 i T 
Exemplos: 
"Ovtdio  muitos poetas ao mesmo tempo". 
(ANTNIO FELIcIAN0 DE CASTILHO) 
"Tito era as delcias de Roma." (Apud CARNEIRO RIBEIRO, Seres) 
3? CASO: Quando um dos dois termos da frase - sujeito ou predicativo for pronome pessoal, faz-se a concordncia com este pronome. 
Exemplos: 
"Todo eu era olhos e corao." (MACHADO DE Assis) 
"O Brasil, senhores, sois vs." (RUI BARBOSA) 
"Nas minhas terras, o rei sou eu." (ALEXANDRE HERCULANO) 
4? CASO: Estando o verbo ser entre dois substantivos de nmeros diversos, ambos comuns -, o que vai orientar a concordncia  o sentido da frase: ela se far com 
o termo a que se quiser dar maior relevo, isto , com o elemento mais importante para quem fala. 
Exemplo: 
"Justia  tudo, justia  as virtudes todas, justia  religio, 
justia  caridade, justia  sociabilidade,  respeito s leis,  
lealdade,  honra,  tudo enfim." (ALMEIDA GARRETr) 
Belssimo exemplo este, "onde  evidente intuito do escritor tornar 
patente, pela concordncia, o relevo com que se lhe avulta ao esprito 
a idia exprimida pelo vocbulo justia, que  aqui manifestamente 
a predominante e cuja fora ele mais e mais encarece, repetindo o sinal 
que serve para a exprimir na linguagem". (CARNEIRO RIBEIRO) J na seguinte frase de Camilo Castelo Branco: 
"O horizonte da terra mais afastado so cordilheiras agras", 
a impresso que deve surpreender o leitor - elemento afetivamente predominante - se concentra no predicativo cordilheiras agras. 
A verdade  que campeia certa arbitrariedade de construo: 
"O maior trabalho que tenho  os pastores com quem trato." 
(FRANCISCO RODRIGUES LOBO) 
"Mulheres mudas  peonha." (DOM FRANCISCO MANUEL DE MELO) 
"Mas sei de uma coisa: meu caminho no sou eu,  outro,  os 
outros." (CLARICE LISPECTOR) 
405 
5? CASO: Emprega-se no singular o verbo figurante nas locues  muito,  pouco,  mais de,  menos de,  tanto, junto  especificac 
de preo, peso, quantidade, etc. 
Exemplos: 
"Vinte e quatro horas no  muito." (MACHADO DE Assis) 
". . . oito dias... e mais trs dias  tanto tempo!..." (ANTNIc 
VIEIRA) 
"Quinze anos era muita coisa, mas para elas Zito ainda era urr 
menino." (AUTRAN DOURADO) 
6? CASO: Quando  usado impessoalmente, a concordncia d-se 
com o predicativo.. 
Exemplos: 
"Hoje so vinte e um do ms, no so?" (CAMILO CASTELC BRANCO) 
"Eram sete de maio da era de 1439..." 
(ALEXANDRE HERCULANO) 
"So 17 deste ms de julho." (ALMEIDA GARRETT) 
Assim diremos: 
Hoje  DIA 31 de outubro, 
porque a o predicativo  a palavra dia. 
No entanto: 
Hoje so SETE de maro, 
porque, neste caso, o predicativo  o numeral sete. 
Da mesma forma, assim  que se pergunta: 
- Que horas so? 
pois; em tais frases, no h sujeito, e o predicativo  que (pronome 
adjetivo equivalente a quantas) horas. 
E responder-se-: 
- E uma hora. 
- So trs horas. - 
"Eram trs horas quando Marina deixou o hotel." (ERIC 
VERSSIMO) 
Fica sempre o verbo, pois, em concordncia com o predicativo 
21. UM CASO DE REALCE COM O VERBO 'SER' 
A servio da nfase ou realce, pode o verbo ser (vazio de signii 
cao e sem papel sinttico) figurar em frases assim: 
406 
a) Esta criana quer  dormir. 
b) Visitei a Europa foi durante o vero. 
Nestas construes, o termo intensificado  o que est  direita do verbo ser; e provavelmente tero elas resultado da elipse de elementos requeridos pela estruturao 
gramatical plena das frases-fontes respectivas. 
No exemplo a), essa frase-fonte teria sido a seguinte: 
O que esta criana quer,  dormir. 
No caso b), h para notar que, se o verbo ser vier ANTES do verbo 
principal, aparecer, em correlao obrigatria com ele, uma partcula 
que, igualmente parasitria: 
Foi durante o vero que visitei a Europa. 
22. A LOCUO ' QUE' 
Como elemento de realce, vale-se a lngua da locuo  que, idiotismo portugus de grande poder expressivo. 
Tal locuo  invarivel, e, por isso, no se altera a concordncia 
do verbo da orao - a qual se faz normalmente com o seu sujeito: 
eu ( que) coso ele ( que) cose vs ( que) coseis 
tu ( que) coses ns ( que) cosemos eles ( que) cosem 
Exemplo: 
"- Voc fura o pano, nada mais; eu  que coso, prendo um pedao ao outro, dou feio aos babados..." (MACHADO DE AsSIS) 
IRREGULARIDADES DE CONCORDNCIA 
CONCORDNCIA IDEOLGICA 
Consideraes gerais 
A concordncia  campo vastssimo, em que constantemente entram 
em conflito a rigidez da lgica gramatical e os direitos superiores da 
407 
imaginao e da sensibilidade. Razes de ordem psicolgica, ou e tica, acutilam fundo, por vezes, as normas que a disciplina gramati estabeleceu por boas e inviolveis. 
"De ordinrio, quando se diz que certo termo deve concordar c outro, tem-se em vista a forma gramatical deste termo de referm Dzia, povo, embora exprimam pluralidade 
e multido de seres, coi deram-se, por causa da forma, como nomes no singular. 
H, contudo, condies em que se despreza o critrio da form atendendQ apenas  idia representada nela palavra, se faz a concordr com aquilo que se tem em mente. 
A frase assim constituda e q analisada segundo os meios de expresso, parece incongruente, os gramticos os nomes de constructio ad sensum ou, helenizand parte 
explicativa, constructio kata synesin, ou, abreviando, simpi mente .synesis (em portugus snese). 
Consiste, portanto, a snese em fazer a concordncia de uma p vra no diretamente com outra palavra, mas com a idia que esta gere"* "...no com a letra, mas com 
o esprito."** 
So desvios, quase sempre inconscientes, que correspondem a tizes do sentimento e da idia. O estudo e explicao dessas irregi ridades faz parte de uma cincia 
especial chamada Estilstica. 
Acompanhemos o raciocnio e os mtodos de um estilista. 
"Vejam-se estas quatro frases, respectivamente de Heitor Pinto, 1 de Barros, Francisco de Morais e frei Antnio das Chagas: 
1) A formosura de Pris e Helena foram causa da destruic 
Tria. 
2) Os povos destas ilhas  de cor baa e cabelo corredio. 
3) Foi dom Duardos e Flrida aposentados no aposento que ti 
o seu nome. 
4) Pouco importa que tenha a casa cheia de prolas e diaman 
se se no aproveita delas. 
Se atentarmos bem nestas frases e nas outras j apresentadas, ver que esses desvios aparentes de concordncia se explicam sobret por trs motivos: um, que consiste 
em concordar as palavras no gundo a letra, mas segundo a idia; outro, segundo o qual a concordi varia conforme a posio dos termos do discurso; e um terceiro, 
* Said Ali, Gramtica histrica da lngua portuguesa, cit., p. 280. 
** Mano Barreto, Atravs do dicionrio e da gramtica, Rio de Janeiro, Quare 
1927, p. 192. 
408 
traduz o propsito de fazer a concordncia com o termo que mais interessa acentuar ou valorizar. 
A 1 e 2 frases so um exemplo dessa concordncia mental, a que se chama 'snese', mais particularmente, 'silepse'. Na primeira, como se trata de duas pessoas, consideram-se 
dois exemplos de formosura, e por isso se ps o verbo no plural. Na segunda frase, temos em mente, para alm do plural, a imagem coletiva, representada por a populao, 
a gente. No terceiro exemplo, sentimos perfeitamente que o singular foi se deve apenas  sua localizao no princpio da frase; se pusermos o verbo depois do sujeito, 
j no  possvel essa construo: "Dom Duardos e Flrida foram aposentados...". Enfim, na 4 frase, hoje 
diramos deles; mas o autor preferiu referir-se a prolas, por ser para 
ele a palavra mais expressiva e potica."* 
Cumpre notar que a concordncia portuguesa tem caminhado no sentido de restringir cada vez mais os fenmenos ideolgicos e afetivos em seu sistema, por fora da 
autocrtica coercitiva que a gramtica impe aos que escrevem. Isso importa, por sem dvida, maior ordem e nitidez de expresso, mas atesta, de outro lado, a escassez 
de grandes e audaciosos artistas, que no se arreceiam de transcender limites e esquemas em seus formosos momentos de entusiasmo e de luz. 
Alguns casos de concordncia ideolgica 
1) As expresses de tratamento Vossa Excelncia, Vossa Majestade, Vossa Senhoria, etc..., FEMININAS pela forma, exigem no MASCULINO os adjetivos a elas referentes, 
quando se empregam em relao a um homem. 
Exemplos: 
Vossa Majestade mostrou-se generoso. 
Vossa Excelncia  injusto. 
2) Ainda com relao ao gnero, no  raro fazerem-se flagrantes discordncias gramaticais. 
No seguinte exemplo de Garrett: 
"Conheci uma criana.., mimos e castigos pouco podiam com 
ele", 
deixou-se o autor trair pela conscincia de que a criana era wn menino, posto que na frase nada indicasse o sexo. 
* Rodrigues Lapa, ob. cit., pp. 167-8. 
409 
Eis mais dois exemplos do mesmo tipo, colhidos, como o primeiro, por Carlos Gis: 
"Est uma pessoa ouvindo missa, meia hora o cansa." (MANUEL 
BERNARDES) 
"Algum andava ento bem saudosa." (JOO DE BARROS) 
3) A um sujeito coletivo do singular pode referir-se um verbo nc plural, desde que predomine a idia, concreta e viva, da pluralidade 
dos indivduos que compem a coleo. 
Exemplo: 
"O resto do exrcito realista evacua neste momento Santarm; 
v2o em fuga para o Alentejo." (ALMEIDA GARRETT) 
Neste outro exemplo de Ferno Lopes: 
"O povo lhe pediram que se chamasse Regedor." 
pressente-se a incapacidade de abstrao, a qual levava o portugus 
de outros tempos a transmitir aspecto mais visual aos quadros coletivos. 
"(...) mas o grande escritor que era Ferno Lopes no via no povc uma entidade abstrata, antes qualquer coisa de muito concreto e dc muito vivo, que fervilhava pelas 
ruas e praas de Lisboa, na nsia dc escolher um rei."* 
"O casal no tivera filhos; mas criaram dois ou trs meninos.' 
(AUGUSTO F. SCHMIDT 
4) Tambm, ao contrrio, existe a possibilidade (alis, menos comum), de um verbo se manter no singular quando o sujeito mltiplo, ainda que possua termos no plural, 
favorea uma intensa representac unitiva. 
Exemplo: 
"(...) e possa aquele curto interesse fazer maiores e menores homens aqueles que Deus e a Natureza fez iguais." (DOr 
FRANCISCO MANUEL DE MELO) 
Nesta frase, o esprito no decompe Deus e a Natureza em dois 
elementos separveis; antes prevalece, avultando avassaladoramente, 
a idia da unidade dos dois conceitos. 
5) A um sujeito da 3 pessoa do plural pode referir-se um verbc na 1 pessoa do plural, e isso acontece sempre que estiver implcita a idia de que a pessoa que fala 
ou escreve (1 pessoa - eu) est includa entre os que participam da noo expressa pelo verbo. 
* Rodrigues Lapa, ob. cit, p. 169. 
410 
- .-._. r -i 
Exemplos: 
"Dizem que os cariocas somos pouco dados aos jardins pblicos." (MACHADO DE Assls) 
"Todos geralmente o adoramos, porque todos nos queremos adorados." (ANTNIO VIEIRA) 
 construo usual nas peties firmadas por vrias pessoas: 
Os abaixo assinados requeremos a V. Exa... 
O mesmo se d em relao  2 pessoa do plural, em frases deste tipo: 
"Os portugueses sois assim feitos." (S DE MIRANDA) 
"No nego que os catlicos vos salvais na Igreja romana." 
(ANTNIO VIEIRA) 
EMPREGO DO INFINITIVO 
Os verbides 
A tradio gramatical tem includo nas conjugaes, considerando- as como formas verbais, trs classes de palavras s quais faltam certas caractersticas essenciais 
do verbo. So elas: o infinitivo, o gerndio e o particpio. 
A gramtica clssica as denomina uerbum infinitum, em contraste com as do indicativo, subjuntivo e imperativo, chamadas uerbum finitum. Autores modernos intitularam-nas, 
expressivamente,fonnas nominais do verbo, ou, como prefere Rodolfo Lenz, VERBIDES. 
O infinitivo em portugus 
Por ser um verbide, o infinitivo carece normalmente de flexo. 
No entanto, a lngua portuguesa apresenta, em relao s mais lnguas neolatinas, esta riqussima particularidade: nela, desde os mais antigos tempos, pode o infinitivo 
referir-se a determinado sujeito, graas s desinncias de nmero e pessoa: amar eu, amares tu, amar ele, amarmos ns, amardes vs, amarem eles. E um idiotismo nosso, 
de alto valor estilstico, e cuja sistematizao tem dado margem s maiores controvrsias. 
Com emprego muito mais restrito, existe tambm no galego e se 
encontram vestgios de seu uso em documentos do antigo leons e do 
napolitano, mas neste s em escritos do sculo XV. 
411 
"Fato muito positivo  que este infinitivo se encontra nos mais tigos monumentos da lngua portuguesa, parecendo ter nascido o o prprio idioma. E o que mais surpreende 
 que, apesar do nti: 
parentesco do portugus com o castelhano, ficasse este desprovido infinitivo pessoal, e apesar do contacto da nossa literatura com o c telhano e mais tarde com o 
francs e outros idiomas, nenhuma lng absolutamente nenhuma, influenciasse o portugus no sentido de r tringir-lhe de algum modo o uso do infinitivo flexionado. 
Pelo contrrio. Esta forma resistiu a todas as influncias estran] 
desde que apareceu, e o seu uso, quando muito, tem-se ampliado 1 
nossos escritores modernos. 
Vem a propsto mencionar um fato muito significativo, observ por Frederico Diez. Houve, como se sabe, um tempo em Portu em que os poetas escreviam as suas obras 
parte em portugus, e pi em espanhol, lngua que lhes era bastante familiar. Pois bem: to eles, excetuando unicamente Cames, cometeram o erro de empre o infinitivo 
flexionado em espanhol, como se tambm o castelhano nhecesse semelhante forma."* 
Assim, ao lado do infinitivo impessoal, sem sujeito e, portanto, s 
flexo, possumos um infinitivo pessoal, que, referido a um suje 
pode, ou no, flexionar-se. 
Exemplos: 
Fumar  nocivo  sade. (infinitivo impessoal) 
Trabalha, meu filho, para agradar a Deus. (infinitivo pes 
no flexionado) 
Trabalha, meu filho, para agradares a Deus. (infinitivo pes5 
flexionado) 
At hoje no foi possvel aos gramticos formular um conjunte 
regras fixas, pelas quais se regesse o emprego de uma e outra forma 
* Said Ali, Dificuldades da lngua portuguesa, cit., p. 55. 
** Tiveram muita voga, at relativamente pouco tempo, as regras formuladas sculo XVIII, por Jernimo Soares Barbosa, em sua Gram4tica filosfica da l,i portuguesa; 
bem como as do alemo Frederico Diez, na Gramtica das ln romnicas, da primeira metade do sculo XIX, cuja doutrina foi entre ns vulgari por Jlio Ribeiro. 
A p de cal no assunto foi dada por Said Ali, em brilhante estudo publicado citadas Dificuldades da lngua portuguesa, pp. 55-76. Retomou a matria o profe Theodoro 
Henrique Maurer Jr., em extenso artigo inserto na Revista Brasileir Filologia, vol. 3, tomo 1, 1957, pp. 19-57. 
412 
A cada passo infringem os escritores alguns preceitos tidos por definitivos; e isso porque, ao lado das razes de ordem gramatical, e interferindo nelas, alam-se 
muitas vezes ao primeiro plano certas condies reclamadas pela clareza, nfase e harmonia de expresso. 
Alguns conselhos para o uso do infinitivo 
NO FLEXIONADO 
O infinitivo sem flexo aparece nos seguintes casos: 
1) Quando figura indeterminadamente, na plenitude do seu valor nominal, sem referir-se a nenhum sujeito: 
"Viver  lutar." (GONALVES DIAS) 
"O experimentar  desenganar-se." (ALEXANDRE HERCULANO) 
2) Quando tem sentido de imperativo: 
"Cessar o fogo, paulistas!" (JLIo RIBEIRO) 
"Andar com isso - bradou Mascarenhas, batendo furioso com 
o p na casa - andar com isso!" (ARNALDO GAMA) 
3) Quando, regido da preposio de, tem sentido passivo e se emprega como complemento de um adjetivo: 
"As cadeiras, antigas, pesadas e macias, eram difceis de menear." (Rui BARBOSA) 
"(...) coisas filceis de perceber." (MACHADO DE Assis) 
"Versos! so bons de ler, mais nada; eu penso assim." (MACHADO DE ASSIS) 
4) Quando, precedido da preposio a, equivale a um gerndio que, em locuo com um verbo auxiliar, indique modo ou fim. 
"Todos no mesmo navio, todos na mesma tempestade, todos no mesmo perigo, e uns a cantar, outros a zombar, outros a orar e chorar?" (ANTNIO VIEIRA) 
5) Quando se agrega, como verbo principal, a um auxiliar, formando com ele uma unidade semntica. 
Em portugus, esses verbos auxiliares que mais habitualmente REGEM OUTRO VERBO so os seguintes: 
chamados 'auxiliares modais' 
poder saber querer dever 
413 
ir - 
principiar a 
comear a 
costumar "s... chamados 'auxiliares acurativos' 
acabar de j' 
cessar de 
tornar a 
etc. 
Estes ltimos, os acurativos, so auxiliares que se juntam a um verbo 
principal a fim de indicarem noes subsidirias de comeo de ao, 
durao, repetio, continuao, terminao, etc. 
"O sujeito da orao  indicado pela desinncia desses auxiliares, ao passo que o verbo principal que os acompanha  uma forma nominal, de todo em todo desprovida 
de sujeito" - diz Said Ali,* em relao a estas duas classes de auxiliares. E continua assim: 
"H ainda alguns verbos, como ousar, desejar, gostar de, vir, etc., que, sendo completados por outro verbo, no admitem a existncia de um sujeito neste novo verbo 
e, portanto, s se empregam com o infinitivo impessoal. No os podemos, entretanto, acomodar em nenhum dos grupos de auxiliares; mas isto  de somenos importncia 
para a concluso a que at agora temos chegado e que vem a ser: infinitivo sem sujeito  o mesmo que infinitivo sem flexo. "' 
Tem-se por escusado aduzir abonaes para este caso, to comum  ele. A ningum assaltaro dvidas sobre frases destes tipos: Podeinos sair. No soubeste resolver 
o problema. Deveis partir. Comearain a escrever. Havemos de vencer, etc. 
6) Quando seu sujeito  um pronome pessoal tono, que serve concomitantemente de complemento a um dos cinco verbos - ver, ouvir, 
deixar, fazer e mandar: 
"Viu-os partir um herege." (FREI Lus DE SousA) 
"Ela nos recebeu com muita alegria e mandou-nos assentar em 
umas esteiras." (FERN0 MENDES PINTO) 
"Deixai-os morder uns aos outros, que  sinal de Deus se amercear de ns." (ALEXANDRE HERCULANO) 
* Said Ali, Dificuldades da l(ngua portuguesa, cit., p. 60. 
** Ideni, ibidem. 
414 
FLEXIONADO 
O infinitivo pessoal flexionado emprega-se obrigatoriamente num s caso: 
- Quando tem sujeito prprio, distinto do sujeito da orao principal (ressalvado,  claro, o item 6 do caso anterior): 
"Vivi o melhor que pude, sem me faltarem amigas..." 
(MACHADO DE Assis) 
"Veio-me  lembrana a notcia lida naquela manh de estarem fechadas todas asfarm4cios da cidade." (MACHADO DE Assis) "Cerrai a porta, que h a alguns vizinhos 
de andares altos, que j murmuram sermos ns ruins gastadores de tempo." (ANTNIo 
FELICIANO DE CASTILHO) 
CASOS DE DUPLA CONSTRUO 
1) Quando, apesar de subordinado a um auxiliar com o qual forme um todo semntico (veja-se item 'No flexionado', 5), estiver esse auxiliar afastado do infinitivo: 
"Possas tu, descendente maldito 
De uma tribo de nobres guerreiros, 
Implorando cruis forasteiros, 
Seres presa de vis aimors!" (GONALVES DIAS) 
"Todas aquelas cenas dispersas e incompletas na memria de Cervantes deviam, animadas por uma grande fantasia de poeta, sublevarem-se-lhe na mente." (LATINO COELHO) 
O trecho seguinte abona ambas as sintaxes: 
"Queres ser mau filho, mau amigo, deixares uma ndoa d'infmia 
na tua linhagem?" (ALEXANDRE HERCULANO) 
2) Quando o sujeito do infinitivo  um substantivo que serve ao mesmo tempo de complemento a um dos cinco verbos: ver, ouvir, deixar, fazer e mandar. * 
a) Com a forma no flexionada: 
"O vento tpido, mido e violento, fazia ramalhar as rvores 
do jardim." (ALEXANDRE HERCULANO) 
b) Com a forma flexionada: 
"Viu sarem e entrarem mulheres." (MACHADO DE ASSIS) 
* No confundir com o caso do item No flexionado', 6), onde o complemento  um pronome pessoal tono. 
415 
No excerto a seguir, documentam-se uma e outra sintaxe: 
"Juntos vimos florescer as primeiras iluses, e juntos vi 
dissiparem-se as ltimas." (MACHADO DE Assis) 
3) Quando, apesar de possuir sujeito igual ao da orao princi houver o "intuito ou necessidade de pormos em evidncia o age 
da ao" (Said Ali). 
Exemplos: 
"Virtude, sem trabalhares epadeceres, no vers tu jamais o 
teus olhos." (MANUEL BERNARDES) 
"Foram dous amigos  casa de outro, a fim de passarem as ho 
de sesta." (MANUEL BERNARDES) 
A concluso nos aponta esta verdade: na maioria dos casos, o i 
do infinitivo flexionado ou no flexionado pertence mais ao territ 
da Estilstica do que ao da Gramtica. 
416 
+ 
